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Antes o mundo era pequeno


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Considere a contracapa do meu disco Parabolicamará, que traz a foto de minha filha Maria Gil levando na cabeça uma parabólica de palha:

Antes o mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje o mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará

Ê, volta do mundo, camará
Ê, mundo dá volta, camará


Gravei esta música em 1991. Ela dava título ao disco que tem a contracapa que vocês estão vendo projetada no telão. É a foto de minha filha Maria, carregando - com o jeito característico das mulheres africanas e brasileiras - um cesto em forma de antena na cabeça. Naquela época ainda não era tão comum se ouvir a palavra globalização. Chamei o disco de Parabolicamará,dando nome a alguns aspectos de uma possível globalização que eu vislumbrava e que também até desejava de maneira ao mesmo tempo alegre e trágica, como alguém que deseja firmemente tudo aquilo que lhe acontece. Parabolicamará une as palavras parabólica, da antena onipresente hoje mesmo nos recantos mais pobres do Brasil, com camará, a maneira que os jogadores de capoeira, a luta lúdica afro-abrasileira, escolheram para chamar seus parceiros, camaradas, enquanto dançam e cantam.


O refrão "Ê, volta do mundo, camará", eu sampleei também de um verso muito comum em qualquer roda de capoeira. É uma maneira de cantar a vastidão do mundo, que também carrega a certeza de que o mundo vai e volta, e que na próxima volta – na volta também coreografada pela dança-luta – quem hoje perde pode se tornar o vencedor. Tudo muda, o tempo todo. E só quem sabe entender a mudança pode conquistar a vitória, ou melhor, vitórias, sempre parciais. Quando estava compondo pensava também na história da capoeira. Outro dia fui conhecer Macau. Há poucos anos, lá em Macau, havia um garoto português que ensinava capoeira para garotos angolanos. O mundo certamente dá muitas voltas e se torna cada vez mais complexo.


Dizem que a capoeira engravidou em Angola, mas foi nascer no Brasil. Ninguém sabe ao certo sua história. Mas parece mesmo que é uma criação bem brasileira a partir de elementos africanos, como o samba. Hoje brasileiros dão aulas de capoeira na África, em Portugal, e em muitos outros países. Seus alunos espalham a arte pelo resto do mundo. É uma prática esportiva, artística e até mesmo espiritual que se torna patrimônio da humanidade, assim como o judô, a esgrima ou o boxe tailândês. Procurem a capoeira na internet. Eu consultei o Google: são 553 mil páginas de web. Poucas se comparadas com as 5 milhões e 800 mil que citam a palavra samba, ou as 6 milhões 668 mil que falam de reggae, ou as 25 milhões de jazz. Mas é um número que não pára de crescer.

Não houve uma política cultural do Estado brasileiro ou da indústria cultural global para difundir a capoeira pelo mundo. A coisa aconteceu sem apoio oficial, descentralizadamente. Como um vírus que se espalha por todos os continentes. Fico muito interessado ao contemplar esse tipo de fenômenos. Nós, que produzimos as políticas culturais para nossos governos e para as instituições internacionais, temos muito o que aprender ao observá-los. Na minha visão devemos identificá-los, solidificá-los, enfim, fortalecer o que já existe e é produzido com maior ou menor espontanedade pelos povos em seus encontros e desencontros criativos. Isso me parece mais eficiente do que tentar impor de cima para baixo formas de comportamento que tentam dizer aos povos que eles devem ser, ou quem eles devem permanecer sendo. Esses fenômenos de encontros culturais não-programados mostram que muitas forças estão em ação na cultura do planeta e que falar de uma simples homogeneização que acontece sempre da mesma maneira em todos os cantos é talvez simplificar demais a realidade.

Ingenuidade minha? Sei muito bem do outro lado da moeda, das terríveis relações de poder que fazem desaparecer originalidades culturais todos os dias e impõem padrões de consumo em escala planetária visando apenas o lucro fácil. Mas quero encarar de frente o desafio que a indústria cultural global nos propõe, tanto que até hoje também trabalhei dentro dessa indústria, tentando usar seu poder para meus objetivos artísticos. Não sei se consegui criar o meu espaço dentro de suas leis. Mesmo assim continuo cultivando esse estranho e provocador gosto de juntar conceitos que pareciam estar destinados ficarem eternamente separados. Como parabólica e camará. Gosto de ver o mundo ecoando como uma cabaça de berimbau. Gosto de juntar diferenças.

Defendendo radicalmente essa visão de mundo, já fui vaiado muitas vezes. Quando era bem jovem, nos anos 60, e estava me tornando conhecido no Brasil, fui vaiado por uma platéia de estudantes universitários por ter me apresentando acompanhado de um grupo de rock. Esses estudantes achavam que as guitarras elétricas poderiam destruir a autêntica cultura brasileira. Mas sempre pensei cultura como uma obra aberta, como um software de código aberto. As trocas com o que é dos outros, a antropofagia cultural constante, fazem parte das vitalidades das culturas, e a possibilidades de trocas livres devem ser preservadas contra qualquer tentativa de imposição. Talvez pense assim por ter vivido tanto tempo à beira do mar. Tentarei explicar melhor tudo que já disse até agora. Peço desculpas se parecerei repetitivo:


Beira do mar
Lugar comum
Começo do caminhar
Pra beira de outro lugar.


Entre as várias classificações que se pode fazer do ser humano, uma há que me parece conduzir a duas perspectivas bastante distintas, ainda que complementares, sobre a nossa situação no planeta: o ser litorâneo e o do interior. Sou do litoral. Apesar de ter passado parte da infância no interior, cresci com o ethos do litoral. Mais especificamente, da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, Brasil. Essa categoria a que pertenço tende a formar sua noção de pertencimento ao mundo com os olhos perdidos no horizonte. Sentado à beira da praia, olhando o mar, este cinema transcendental a que se refere Caetano Veloso, ainda pequeno viajei por todos os oceanos, ancorei em todos os portos, o bumbum firmemente posto no meu lugar, a alma perambulando por algum lugar nenhum. O continental tende a olhar com desconfiança para este ser, que lhe parece frívolo e sonhador, pois é uma criatura mais sólida, com raízes profundas plantadas em seu território, noção clara de limites e caminhos.

Habitante do porto, do vai-e-vem das ondas e das idéias, cresci brasileiro, afirmação carregada de sentidos ambíguos e misteriosos. Em busca de certezas, voltei-me para os irmãos do interior, paulistas e paulistanos, mineiros das gerais, amazônidas, sertanejos. Como artista, me comovi com este a que chamei de meu povo e cantei suas agruras. Com meu espírito inquieto de litorâneo, no entanto, não resisti à tentação da mistura e embaralhei a sina de uns com a condição de outros, masquei chiclete com banana e, em Bonsucesso, bairro pobre do Rio de Janeiro, outra cidade portuária brasileira, peguei o trem expresso que me tirou do subúrbio pobre brasileiro para o mundo, me lançando para depois do ano 2000.


Começou a circular o expresso 2222
Que parte direto de Bonsucesso pra depois
Começou a circular o expresso 2222 da Central do Brasil
Que parte direto de Bonsucesso pra depois do ano 2000.


Como já disse, ao tocar os ritmos do interior brasileiro com a guitarra elétrica dos Beatles e dos Rolling Stones, choquei os espíritos continentais do meu país. Logo, era considerado uma ameaça à segurança nacional. A Tropicália foi a minha cria, meu destino e meu espaço de afirmação como brasileiro.

Hoje, quando muito se fala de globalização que não é exatamente a que eu cantava em Parabolicamará, quando muito se teme a homogeneização que ela traria, quando guerras de novo são encetadas sob a alegação de garantir a supremacia de determinados valores, considerados superiormente humanos, penso nos meus ancestrais portugueses, que "da ocidental praia lusitana... foram dilatando a fé, o império, e as terras viciosas d'África e d'Ásia andaram devastando." E como na época disso se orgulhou o poeta Camões. Penso nos meus ancestrais africanos, em homens e mulheres litorâneos, debruçados sobre o Atlântico, que significava riquezas, comércio, desgraça, escravidão e saudade. E penso num dos resultados disso tudo, o Brasil de hoje, com seu peculiar amálgama de tragédia e celebração da vida. A História, como Deus, tem formas tortas e insuspeitas de ir escrevendo o seu texto.

Em algum momento, declarei não ter medo de não ser brasileiro. Somos o que somos, apesar de nós, por nós e contra nós. Mas com outro poeta português de olhos também fixos no mar, sempre soube que não sou um, sou muitos. Este que significativamente chamou-se Pessoa, se em um de seus vários eus sofreu a nostalgia do império perdido, não foi por uma grandeza terrena, mas por uma outra inefável, que podia habitar os campos da Antiga Grécia, expressar-se no idioma bretão, ou celebrar o pequeno rio de sua aldeia. Tudo podia, desde que a alma não fosse pequena.

Quando a desconfiança da hegemonia do nacional se alastrou pelo mundo, eu como bom litorâneo já estava preparado. E na minha condição de homem, reconheci minha metade mulher; na de heterossexual, vislumbrei minha sensibilidade homo; na de negro, exaltei minh'alma de todas as cores, na de crente, abracei o credo de todos os deuses. Como político, vi na ecologia a possibilidade de superar nossas mesquinharias imediatistas e dar uma dimensão mais cósmica às nossas ações em sociedade. Hoje, como ministro da Cultura do meu país, vejo no conceito de cultura a possibilidade de lidar com o ser humano brasileiro em todas as suas dimensões, mergulhado num meio ambiente Brasil que é sempre já natureza e cultura. Como artista e cidadão do mundo, vejo na cultura o espaço para o encontro de países, credos, etnias, sexualidades e valores, na cacofonia de suas diferenças, no antagonismo de suas incompatibilidades, na generosidade de um lugar comum, algo que nunca existiu, mas sempre foi sonhado por aqueles que deixam seu olhar se perder no horizonte.

A vocação do menino de Salvador de Todos os Santos, umbigo atado ao torrão natal e alma vagabunda de navegador, me acompanha por todos os portos em que hoje aporto, para falar na linguagem internacional da música sobre um certo povo, que habita em algum lugar, e sobre esse lugar comum, onde todos somos iguais em nossas imensas diferenças.
Gilberto Gil


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