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O conde d´EU, o príncipe injustiçado vasco Mariz


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O CONDE D´EU, O PRÍNCIPE INJUSTIÇADO
Vasco Mariz
Desde jovem ao estudar o segundo Império e a guerra do Paraguai sempre senti uma especial curiosidade pelo Conde d´Eu. As referências eram contraditórias, mais negativas do que positivas, mas nunca cheguei a aprofundar o estudo do personagem. Em 2002, fui designado por Arno Wehling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, para representar a entidade em uma conferência interamericana de institutos históricos em Assunção do Paraguai. Lá pronunciei um discurso sobre a formação da fronteira do Mato Grosso, pesando bem as palavras para não sensibilizar os donos de casa. Creio que agradei, mas ao comparecer a um almoço na residência do presidente do Instituto Histórico Paraguaio, ocorreu um fato extraordinário que me surpreendeu muito.

De acordo com a minha prática diplomática, fui o primeiro a chegar e ao entrar no salão principal da residência encontrei várias crianças brincando. Quase ao mesmo tempo ingressou na sala uma senhora que se dirigiu às crianças aos gritos, dizendo-lhes mais ou menos o seguinte: “Parem ! Basta! Vão brincar lá fora no jardim, senão mando chamar o Conde d´Eu !” Ante essa ameaça terrível as crianças fugiram imediatamente e a senhora se desculpou pela balburdia. Confesso que fiquei paralisado de surpresa, mas depois aproveitei para conversar com colegas paraguaios presentes ao congresso sobre a cena que havia presenciado. Todos me confirmaram: o Conde d´Eu é o brasileiro mais detestado no Paraguai e é, até hoje, o bicho-papão das crianças paraguaias. Apressei-me a esclarecer-lhes que o conde era francês, neto do rei de França Luís Felipe e genro do imperador, mas ouvi frases agressivas contra o comandante-em-chefe das tropas da Tríplice Aliança na última etapa da guerra do Paraguai. Admirei-me de que nenhum dos meus interlocutores lembrou Caxias, Osório, Tamandaré, Barroso ou outros ilustres militares brasileiros que participaram da guerra. Aquela cena em Assunção ficou nos meus ouvidos e ao regressar ao Rio de Janeiro troquei idéias com vários historiadores, que acharam graça na minha historieta.

Em 2009, Mary del Priore pronunciou interessante palestra no seminário francês do IHGB sobre os dois consortes franceses das filhas de D.Pedro II e conheci assim mais pormenores sobre a vida do Conde d´Eu, pouco lisonjeiros aliás, o que me aguçou a curiosidade sobre a personalidade do príncipe. Também no famoso livro de Mary, O Príncipe Maldito, há referências interessantes sobre o Conde d´Eu. Aqui estou a contar-lhes o resultado das minhas pesquisas e leituras sobre o controvertido personagem e confesso que agora escrevo estas linhas com mais simpatia pelo príncipe francês, que tanto gostava do Brasil, mas que foi tão mal compreendido pelos brasileiros.
Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orleans, o Conde d´Eu, nasceu em Neuilly-sur-Seine, hoje bairro aristocrático de Paris, a 28 de abril de 1842. Filho do Duque de Nemours e neto do rei de França Luís Filipe, deposto pela revolução de 1848. A família se exilou para a Inglaterra e só puderam regressar à pátria vinte anos depois. Gastão teve excelentes mestres e com seu irmão Ferdinand estudaram a antiguidade greco-romana, gramática, prosa e poesia, história e geografia, além de diversas línguas. Enfim, a boa educação habitual de um neto de monarca. Este é um pormenor que deve ser guardado, .com relação ao ambiente nada intelectual em que viveria na côrte do Rio de Janeiro.

O Duque de Nemours era o mais pobre, ou o menos rico, dos filhos do rei de França e passou com a família uma vida severa e sem luxo, o que condicionou Gastão a não apreciar mais tarde a vida fútil das côrtes carioca e parisiense. Os irmãos fizeram o high school em Edimburgo, Escócia, e receberam depois aprendizado militar no exército espanhol. Tiveram também rigorosa educação física, que seria útil a Gastão quando estudou na escola militar de Segóvia e mais tarde serviu no exercito espanhol. Gastão serviu no Marrocos como oficial na patente de capitão e lá participou de diversas batalhas mais ou menos importantes, o que de certo modo foi uma preparação psicológica e tática para a sua participação na guerra do Paraguai poucos anos depois. Aliás devemos registrar que ele se saiu muito bem nas refregas militares na África e regressara a Madri com uma pequena reputação de glória.

Curiosamente, o cunhado de D.Pedro II, o príncipe de Joinville, interessou-se pela carreira dos sobrinhos e consultou Nemours sobre a possibilidade de um de seus filhos vir a casar-se com a herdeira do trono brasileiro, a princesa Isabel. A iniciativa agradou, mas depois empacou em virtude das exigências do imperador, tais como a obrigação de fixar residência no Brasil e renunciar à eventual pretensão ao trono francês, o que era afinal uma remota possibilidade. As negociações progrediram e outras regras foram preestabelecidas: em caso de viuvez sem filhos, Gastão teria liberdade completa. Com filhos, só poderia deixar o Brasil após a maioridade deles. Na correspondência das negociações, Gastão era descrito como “bom, amigável e inteligente”.

Afinal dois primos-irmãos foram escolhidos para casar-se com as princesas brasileiras, Isabel e Leopoldina: eram Gusty de Saxe-Coburgo e Gastão d´Orleans, mas como escreveu Mary del Priore, “petites histoires não faltam”.1 Consta que durante a viagem no navio “Paraná” os primos teriam disputado as noivas em jogos de cartas e até em dados. Gastão tinha 22 anos e Gusty 19 e parecia normal que o jovem Nemours esposasse Isabel, de 18 anos. A 2 de setembro de 1864 chegaram ao Rio de Janeiro e lá “pensava-se no Conde d´Eu para minha irmã e o Duque de Saxe para mim. Deus e os nossos corações decidiram diferentemente”, escreveu Isabel no seu diário. Gastão escreveu a sua irmã na Inglaterra: “Ela nada tem de bonito no rosto, mas o conjunto é gracioso”.

Em seu agradável livro de memórias, o Visconde de Taunay nos recorda que o Duque de Saxe estava destinado à herdeira do trono, e o Conde d´Eu à sua irmã mais nova, mas esta tinha um gênio muito voluntarioso, encantou-se pelo Duque, bateu o pé e não quis desistir de sua preferência. D.Pedro II tergiversou, mas acabou cedendo e trocaram os consortes. Diz Taunay:

“O duque de Saxe tinha de fato melhor presença e maneiras muito mais agradáveis do que o Conde d´Eu, modos mais de príncipe. Mas em sua estada aqui no Brasil não revelou as qualidades de zelo e de consciencioso estudo do Brasil que se manifestaram no conde (...) O duque em sua permanência no Rio de Janeiro, com o titulo de almirante honorário, passou o tempo todo a pedir licenças ou prorrogação de licenças para ir à Europa e lá permanecer.”


A 15 de outubro de 1864 Isabel casava-se com Gastão com toda a pompa na capital do império brasileiro. No dia do seu casamento houve uma tempestade com chuva de pedras que causou grandes estragos na região. Era um mau presságio. Foi elevado a marechal do exército, o que foi um salto para o jovem capitão do exército espanhol no Marrocos. Com apenas 23 anos, Gastão foi nomeado Comandante Geral da Artilharia e presidente da Comissão de Melhoramentos do Exército em 1865 Guardemos esses pormenores para depois fazermos uma projeção à sua participação na guerra do Paraguai, em 1869, quatro anos depois.

O casal demorou dez anos para produzir filhos, o que afinal de contas era a principal obrigação da herdeira do trono brasileiro. O “reprodutor” francês não funcionava, ou seria a princesa infértil ? A tensão foi aumentando, enquanto os cunhados Saxe-Coburgo tinham um filho por ano. A côrte e o povo aguardavam ansiosamente o tão esperado herdeiro do trono. Além do fracasso da paternidade, outros problemas foram aparecendo já no primeiro ano do matrimônio, segundo nos relata Mary del Priore:

“...ele fizera de tudo para demonstrar ao sogro que podia, e devia, ser tratado de igual para igual. Queria ser visto não como um simples consorte, mas como alguém com habilidades bastantes para governar o país. Na França, o marido de uma imperatriz era um imperador e não um adorno. (...) Ameaçava: se não o deixassem partir sob as ordens do marquês de Caxias, abandonaria o cargo de comandante-geral da artilharia. Murmurava, protestava, se rebelava. Sua insistência chegou a irritar o imperador”2

Mais adiante a ilustre historiadora foi até maldosa: “Fragilizado na cama, é provável que quisesse compensar sua frustração nos campos de batalha. Se não era capaz de insuflar vida, podia semear a morte”. Aqui me parece oportuno fazer o comentário de que, na época, não se pensava ainda que uma mulher pudesse ser estéril, o que hoje em dia é bastante corriqueiro. O culpado talvez não fosse ele e sim a princesa... Como escreveu mais adiante Mary, “ os filhos de Leopoldina constituíam uma ameaça. Eram os prováveis usurpadores do trono”. Pobre Gastão. !

Afinal chegou o grande momento para o príncipe de Orleans. A guerra do Paraguai se aproximava do final e Caxias regressara ao Rio de Janeiro, dando por encerrada sua participação. Começava porém o período mais inglório da guerra, a caça a Solano López, que fugira para as montanhas – seria uma etapa despida de glórias. D.Pedro II, que antes recusara vários pedidos de Gastão para participar da guerra, agora solicitava a sua colaboração. Ele que antes recusara nomeá-lo apenas um dos assessores de Caxias, agora propôs seu nome para Comandante-em-Chefe dos três exércitos e disse-lhe por carta que confiava ”em seu patriotismo e iniciativa”. Um dos argumentos em seu favor era que Gastão falava bem o espanhol e, portanto, poderia se entender bem com os chefes militares argentinos e uruguaios. D.Pedro II julgava que a guerra só poderia terminar com a morte de Solano Lopez. Mary del Priore, sempre cáustica, escreveu que “Gaston iria se prestar ao papel que Caxias recusara e que Isabel chamou de “capítão-do-mato”, atrás de López. Papel de coveiro”.

Desde o começo da guerra do Paraguai, o jovem Conde d´Eu, que havia combatido quase dois anos com brilhantismo no Marrocos como oficial subalterno espanhol, solicitara ao ilustre sogro a nomeação para combater, mas a opinião publica não via com bons olhos um francês no comando de tropas brasileiras. Tampouco à princesa Isabel agradava a idéia de que seu maridinho arriscasse a vida em conflito tão sangrento e penoso. Taunay diz-nos que “a nomeação a Comandante-em-Chefe das forças de operações da Tríplice Aliança no Paraguai encheu de exaltação e orgulho o coração do Conde d´Eu”. O decreto dessa nomeação foi assinado pelo Imperador a 22 de março de 1869 e a designação, de um modo geral, causou boa impressão entre a população e a imprensa. Assim o Conde passava de capitão do exército espanhol a general em chefe dos exércitos dos três países aliados e isso aos 27 anos de idade”. O historiador Francisco Doratioto apreciou a sua nomeação como “um meio de reerguer o moral da tropa e demonstrar que o imperador estava disposto a por fim à guerra por meio de uma vitória militar”3

O Barão do Rio Branco, em seu livro sobre D.Pedro II, salientou que o Conde d´Eu, logo ao assumir seu importante posto, pressionou o governo paraguaio pela abolição da escravatura no Paraguai, e comentou:

“O conde d´Eu não se preocupou com as dificuldades de sua missão. Soube desenvolver a serviço do país que o adotara e lhe confiara a sorte de seu exército, preciosas qualidades de administração e bravura que justificaram plenamente a escolha do imperador e seu governo”

A responsabilidade era grande, embora não fossem mais esperados sérios combates militares. O Visconde de Taunay já o conhecera bastante bem anteriormente, desde que os genros do Imperador o acompanharam a Uruguaiana para a rendição daquela cidade gaúcha, ocupada pelos paraguaios. Taunay ficara bem impressionado com o príncipe, que se mostrara interessado em tudo, indagava e colhia informações sobre o que se passava, enquanto o Duque de Saxe “não mostrava senão desprezo e indiferença pelo que se passava”.

Taunay foi meticuloso em suas memórias, pois começou por nos oferecer um perfeito retrato do príncipe, com suas qualidades e defeitos, antes de relatar os principais episódios da campanha. Gaston d´Orleans era estudioso, modesto, falava várias línguas, era simples, não gostava de intrigas, pouco propenso a aceitar bajulações, de uma fidelidade conjugal intangível, excelente pai de família, bom católico, paciente e discreto. Entre os defeitos, Taunay salientava que embora ele tivesse uma bela estampa (era mais alto ainda do que o Imperador), tinha um narigão temível. Era desajeitado, deselegante, frequentemente despenteado, vestia-se mal, não dançava bem, instável no trato diário, meio surdo, avarento e propenso ao desânimo e à depressão, como aconteceu ao final da campanha no Paraguai. Seu sotaque áspero e desagradável, por vezes demasiado acentuado, desagradava. No entanto, Taunay encerrou seus comentários dizendo que o conde d´Eu “foi vítima de muitas calúnias totalmente infundadas”. Ele soube o seu lugar na corte, a delicada posição de príncipe consorte, e sem dúvida representou bem o papel que lhe competia”.4

O Conde d´Eu saíra do Rio de Janeiro com “ardores militares esfriados” e assumiu em Luque a 14 de abril de 1869. Já o general Osório, seriamente minimizado na saúde, seguiu mais para elevar o moral da tropa por sua fama. Gastão fez uma bonita proclamação inicial e, em condições difíceis, mostrou-se incansável nos múltiplos trabalhos de um comandante supremo. Aos 27 anos tinha generais famosos sob suas ordens, como Osório, como quem aliás se deu muito bem. Foi hábil no trato com as personalidades dos três paises que estavam sob seu comando e todos previram que ele daria boa conta do cargo, como escreveu o Visconde de Taunay. Desenvolveu extraordinária atividade em vários momentos delicados da campanha final e, mais de uma vez, correu sério risco de vida. Taunay se surpreendeu porque “o viu por vezes dar bolachas e pão aos soldados que montavam a guarda de sua grande barraca de campanha”.5

Taunay nos conta que o conde revelou “grande habilidade estratégica, paciência de um experimentado capitão, indiscutível coragem e sangue-frio. Na batalha de Acosta-Ñu correu grandes riscos”. Entretanto, Gastão não foi bem tratado por outros historiadores que abordaram a guerra do Paraguai. Julio José Chiavenato o acusa de “sanguinário, autor de verdadeiros crimes de guerra”6 Doratioto o considerou quase um “criminoso de guerra”. Gastão foi acusado de haver ordenado a morte inglória do coronel Pedro Caballero e do político paraguaio Patrício Marecos.

Depoimento que me parece irrefutável sobre o comportamento do conde d´Eu no Paraguai foram as palavras do general Osório no grande banquete de 25 de maio de 1877, portanto sete anos depois do termo da guerra.

“Brindo o senhor Conde d´Eu, meu companheiro d´armas, pelo seu valor, pela sua coragem e pela justiça com que administrou o exército. Brindo-o porque no Paraguai deu sempre provas de amar o Brasil e se devotou d´alma ao seu serviço, como os brasileiros que lá serviram”


Houve também momentos em que o príncipe francês caiu em depressão, em consequência das terríveis condições da campanha, fato que eu considero compreensível e que também deve ter acontecido com outros chefes militares durante a guerra do Paraguai., em todos os níveis. Aliás, D.Pedro II era um deprimido também. Gaston chegou até a pedir ao imperador licença de três meses, mas os acontecimentos se precipitaram e ele seguiu em frente. Embora meio relutante, Gastão perseguiu López tenazmente até o fim, o que era sua missão principal.

Comentando a batalha de Peribebuy, a mais importante da etapa final da guerra, o historiador paraguaio Efraim Cardozo, assim escreveu:


“El Conde d´Eu, que mandó personalmente el asalto, reveló instintos sanguinários. Por su orden fué incendiado el hospital, repleto de heridos, y degollado el comandante Caballero, que mal herido habia caído prisionero con otros quinientos más, que sufrieron igual suerte” (...) Los pocos que quedaron con vida, mal heridos, fueron también immolados por orden del Conde d´Eu” 7
Já o historiador brasileiro Reginaldo Bacchi afirma o contrário. O famoso incêndio do hospital, que causou a morte de centenas de pessoas, não foi proposital e sim “consequência dos bombardeios aliados no início da batalha, direcionados às fortificações paraguaias”.8

Recentemente estive na Argentina e fui à belíssima livraria El Ateneo, de Buenos Aires, em busca de obras de autores argentinos sobre a guerra da Tríplice Aliança. Foi uma surpresa, pois somente dois livros sobre o assunto estão disponíveis no mercado no momento: Campañas militares, tomo 4, de Isidoro Ruiz Moreno, de 2008, e La guerra del Paraguay, de 2010, de nosso conhecido Miguel Angel de Marco, sócio correspondente do IHGB na Argentina. Curiosamente, em nenhum dos dois livros houve condena, ou apenas censura, ao Conde d´Eu por suas supostas violências. Ora, se eram verídicas aquelas acusações paraguaias ao Conde d´Eu, os historiadores argentinos não teriam perdido oportunidade para denegri-lo. Ruiz Moreno foi porém muito duro com o marquês de Caxias ao publicar em seu livro uma carta veemente do presidente Mitre ao Comandante-em-Chefe brasileiro reclamando dele por não haver impedido que os soldados brasileiros saqueassem e pilhassem a cidade de Assunção, cometendo violências condenáveis.

Ao final da guerra, o Conde d´Eu partiu de Assunção a 19 de abril de 1870 e chegou ao Rio de Janeiro a 29 do mesmo mês. De regresso à capital, o Conde d´Eu foi recebido como um herói, nos relata o historiador Doratioto em seu interessante livro Maldita Guerra.

“O príncipe consorte voltou à corte sem os regimentos, sem desfile, sem as bandeiras que ele desejara. Mas, de todo modo, foi recebido com grande manifestação popular promovida pelos liberais com vistas a ferir Caxias. Apresentaram o conde d´Eu e Osório como os vencedores da guerra e assim cometia-se uma injustiça com Caxias”9

Após aqueles momentos de glória ao regresso do Paraguai, a vida do Conde d´Eu voltou a entrar na antiga e monótona rotina da corte, com todos os inconvenientes já relatados acima. Felizmente para o casal, quando o marido chegou aos 31 anos, Isabel deu a luz em 15 de outubro de 1875 a D.Pedro de Alcântara. No ano anterior nascera uma menina, que falecera por complicações de parto. Em 1878 nasceu o segundo filho varão do casal, D. Luís, e em 1881, em Paris, viu a luz o terceiro filho do casal, D.Antônio. Afinal, o reprodutor francês funcionara bem...Gastão escolheu o doutor Ramiz Galvão, diretor da Biblioteca Nacional, como preceptor dos três filhos do casal, insistindo porém em uma educação simples e sem preconceitos, tal como ele recebera do Duque de Nemours.

E aqui chegamos ao período tão delicado dos últimos anos de Gastão e Isabel no Brasil, até novembro de 1889, e por isso devemos medir bem as palavras para também não sermos injustos e cair na infeliz patriotada que azedou a vida diária do casal até a sua partida para a Europa, logo após a proclamação da República. Nos últimos anos de sua permanência no Rio de Janeiro, Gastão nada pôde fazer de especial e ocupou-se sobretudo em educar seus três filhos. Cito o ilustre sociólogo Luís da Câmara Cascudo :

“Não é possível enumerar todas as lendas que impopularizavam o Conde d´Eu. Elas foram lançadas para efeitos políticos e os jornalistas republicanos deram curso forçado a essa moeda falsa da calúnia. Todas essas lendas desaparecem no momento de realizar uma prova. (...) O Conde passava a ter cortiços e a explorá-los como meio de renda. Toda a imprensa anos e anos martelou essa tecla sentimental. A verdade sobre o cortiço é que o príncipe arrendou uns terrenos seus, onde foram construídas casinhas para operários de uma pedreira. Nenhum jornal em melhor reportagem pôde identificar esses cortiços, ou localizar um desses espoliados moradores de tão fácil encontro”.10
Já se escreveu que o Conde d´Eu foi o responsável indireto pela proclamação da República. Ele era detestado por quase todos e parecia evidente que a princesa Isabel, ao assumir o trono, seria fortemente influenciada pelo marido. Os brasileiros não queriam um francês governando o país e, muito menos, um francês antipatizado. “Todos acreditavam que seria ele e não ela quem governaria o país após a morte de D.Pedro II”11

Aqui nos valemos do excelente livro sobre a princesa Isabel do historiador inglês Roderick Barman para nos dar um retrato preciso da redentora.12 Ele estudou minuciosamente no Museu Imperial de Petrópolis a correspondência tanto de Isabel quanto de seu marido e seus comentários me parecem válidos

.

Isabel apaixonou-se profundamente pelo marido e esse amor permaneceu constante até o fim de sua vida. Ela foi também uma filha obediente para D.Pedro II, que como era habitual entre os pais no século XIX, nunca abriu mão do pátrio poder sobre ela. Também foi esposa dedicada para Gastão de Orleans, que desde o começo precisou de apoio e compreensão. D.Isabel se viu apanhada num triângulo tanto físico quanto cultural entre ambos: D.Pedro II e o Conde d´Eu por cima e ela por baixo. As tensões cresceram entre os dois homens: Gastão procurando afirmar seu poder no Brasil e D.Pedro II tratando de emasculá-lo para que não viesse a ser um concorrente. Ela ficava entre dois fogos”


O próprio Gastão estava consciente do problema, tanto que escreveu a seu pai dizendo: “Estou cansado de ser usado aqui como bode expiatório pela imprensa, ostensivamente responsabilizado por tudo, sem na realidade ter voz nem influência” Até Rui Barbosa contribuiu para a sua impopularidade na capital do império. O casal fugia da vida social e política e Gastão procurava agir como uma pessoa comum e isso, ao invés de angariar simpatia pela sua simplicidade, era alvo de mais ataques ainda. Gastão permitiu que seus filhos frequentassem a escola do padre Moreira em Petrópolis e depois na capital o colégio Pedro II. Ronaldo Vainfas esclarece que o Conde d´Eu sofreu calúnias absurdas como as de que se envolvia na exploração de imóveis em cortiços no Rio de Janeiro. Diziam até que Gastão cobrava pessoalmente os aluguéis a seus inquilinos. Heitor Lyra conta que Gastão era visto nas ruas da cidade, de casaca e cartola, seguindo um carrinho puxado por carneiros com as três crianças, quadro meio ridículo que não concorria para o seu prestígio.

Lilia Schwarcz observou com argúcia que

“D.Pedro pensava em preparar a sucessão para seu neto, o príncipe Pedro Augusto, mas a sina dos Braganças se fazia presente com sinais de insanidade mental. Com essa decepção, o Imperador abandonava seus projetos iniciais de sucessão, aumentando o receio geral de um Terceiro Reinado nas mãos de um estrangeiro”13
Durante a grave “questão religiosa”, o Conde d´Eu foi erroneamente acusado pela anistia aos bispos condenados. Os jornais o responsabilizavam por quase tudo de negativo que ocorria no Brasil. Lembro que antes da guerra, o exército brasileiro tinha pequeno peso político, mas depois do êxito no Paraguai sua significação cresceu desmesuradamente e tornou-se importante personagem da política nacional. D.Pedro II parece não haver se dado conta disso e não se preocupava em satisfazer os anseios dos militares..

Ao regressar do front, Gastão era bastante popular, tinha boa aceitação entre os militares, e os liberais o viam com bons olhos, porque detestavam Caxias. Se Gastão tivesse mantido boas relações com a cúpula militar e cultivado os próceres do Partido Liberal, podemos especular que ele não teria sido tão atacado pela imprensa como foi e teria talvez até aberto o caminho para o 3º Reinado. Três herdeiros haviam nascido, todos homens, o que deixou o povo feliz. Mas, erroneamente, ele se retraiu por completo, perdeu contatos preciosos com os militares e os políticos que lhe poderiam ser úteis e acabou alvo da campanha cerrada de boatos muito negativos a seu respeito, que destruíram a sua imagem.

Consta que quando D. Pedro regressou de sua longa viagem ao exterior, de mais de ano e meio, antes de abraçar e ouvir a sua própria filha Isabel e seu genro sobre os principais temas políticos em pauta, o monarco foi diretamente conversar com os membros do gabinete. Ora, Isabel estivera no poder aquele longo período e tomara decisões graves. Se é verídica, tal notícia, parece-me um despropósito e não enaltece a memória do imperador como administrador.. Afinal Isabel acabara de abolir a escravidão no país, fato da mais alta importância para o futuro do Brasil. Desprezava ele tanto a sua própria filha e seu genro ? Gastão chegou a escrever uma carta a seu pai, o Duque de Nemours, dizendo que “nem ele nem sua esposa , eram levados em conta nem pelos políticos, nem pelo próprio imperador”.

Gaston d´Orleans, neto do rei de França, da melhor família da Europa, recebera uma educação certamente muito superior à da maior parte dos integrantes da côrte de D. Pedro II. Era uma distinção para o Brasil e para D.Pedro ter o neto do rei de França como genro. Logo após o casamento, Gastão tudo fez para ser consultado e ouvido pelo imperador, sem resultados. É verdade que ele era ainda muito jovem, com apenas 23 anos, e era natural que D.Pedro o tenha considerado ainda bastante imaturo. Mas se pouco valiam suas opiniões, por que ele pouco depois foi nomeado para cargos importantes ? Logo no início da guerra do Paraguai, Gastão tentou convencer o sogro a deixá-lo combater sob as ordens de Caxias. Ele já tinha bastante experiência bélica e podia realmente ser útil, mas foi tudo em vão.

Em 1869, já ao final da guerra da Tríplice Aliança, ao regressar Caxias ao Brasil, D.Pedro subitamente mudou de opinião e passou a julgar o genro bastante apto, maduro e competente para confiar-lhe o importantíssimo cargo de Comandante-em-Chefe dos três exércitos aliados. Como explicar tal decisão ? Três anos antes ele recusara que Gastão fosse apenas um dos colaboradores de Caxias. Muito estranha essa súbita mudança de parecer sobre a competência de Gastão, que apenas quatro anos antes conhecera as agruras da guerra no Marrocos como capitão do exército espanhol.

Sir Richard Burton, curioso personagem da época, publicou em seu interessante livro Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai que

“Sua Alteza Imperial o Conde d´Eu, com aquele devotamento aos interesses de seu país de adoção que sempre lhe caracterizou a carreira, prontificou-se voluntariamente a prestar serviços. Muitos acreditavam que o jovem, valente e e simpático príncipe estivesse fadado a fracassar, mas não foi assim. ” 14
A título de curiosidade reproduzo o texto de sua proclamação de 17 de abril de 1869, ao assumir o seu cargo de Comandante-em-Chefe no quartel general de Luque, no Paraguai, publicado no livro de Burton .

“Tendo sido designado por um decreto imperial de 22 de março de último Comandante-em-Chefe de todas forças brasileiras operando contra o governo do Paraguai, assumo neste dia a árdua tarefa. Sobre as tropas heróicas hoje unidas sob meu comando, o Brasil deposita suas mais caras esperanças. Cabe-nos alcançar através de uim esforço supremo, a plena finalidade que colocou em armas a nação brasileira, e restaurar para nosso amado país a paz e a segurança indispensáveis ao completo desenvolvimento de sua prosperidade. Com tais objetivos sagrados presentes em nossas mentes, cada um de nós cumprirá o seu dever.

Hoje é o aniversario do dia em que conduzidos por um general de indescritível heroísmo, realizastes em face do inimigo uma das mais ousadas operações militares. Inúmeras provas de bravura e sofrimento, demonstradas antes e depois daquela data sempre lembrada pelo Exército, pela Marinha e pelos Voluntários derramam glória imorredoura sobre as armas brasileiras.

O Deus dos Exércitos não permitirá que que os frutos de tantos sacrifícios, de tanta perseverança, sejam em vão. Ele coroará novamente os nossos esforços e aqueles de nossos leais Aliados. Um triunfo final assegurará a quatro nações os benefícios da paz e da liberdade, e, vitoriosos, veremos novamente o céu maravilhoso de nossa terra natal.

Camaradas ! Havereis de me encontrar sempre pronto a advogar perante os poderes do Estado vossos legítimos interesses. Obrigado, quando menos esperava por isso, a tomar o lugar de generais cuja experiência os guiou através das provações de uma guerra prolongada, confio em receber de cada um e de todos vós a mais cordial cooperação. Vosso apoio me possibilitará cumprir com todas as exigências da árdua missão que me foi imposta pelo meu profundo devotamento à grandeza do Brasil.

Viva a Nação brasileira ! Viva o Imperador ! Viva nossos Alliados !”

(Assinado) Gastão d´Orleans, Comandante-em-Chefe.15
Richard Burton comenta em seu livro que o texto demonstra as melhores intenções do Conde d´Eu, mas lhe falta talvez “alma e originalidade” e que o apelo ao Deus dos Exércitos é “uma pratica antiquada.” Eu diria que o texto expressa uma certa humildade, fez cumprimentos a Caxias, Osório e outros generais ilustres e sublinhou seu devotamento ao Brasil. É possível que o Visconde de Tuanay, seu secretário particular e excelente escritor, tenha colaborado na redação do texto acima.

Após a guerra o conde d´Eu foi recebido de volta como um herói e a opinião pública nacional o ovacionou. O que teria ocorrido para que Gastão se tornasse depois tão desprezível ? Nasceram os três herdeiros do trono, sua principal responsabilidade, mas nem assim o imperador o chamou de volta ao seu convívio mais intimo. Nem Isabel nem Gastão eram consultados para nada, o que é inexplicável, considerando que D.Pedro II estava envelhecido prematuramente, cheio de achaques, e não podia durar muito. Urgia portanto preparar sua sucessora, já que Isabel tinha cultura limitada, não era especialmente inteligente, nem tinha forte personalidade. Nessa altura Gastão deveria estar sendo intensamente informado e preparado para auxiliá-la para que ela não se transformasse em joguete nas mãos de políticos menos escrupulosos. Mary del Priore acredita que seu neto, Pedro Augusto o chamado Príncipe Maldito, era o preferido de D.Pedro II para a sucessão, mas com o aparecimento da grave enfermidade do rapaz era impensável apresentar o nome dele à nação.

Barman relata que, em março de 1889, Gastão tentou assumir um papel nos negócios públicos por ocasião da uma epidemia de febre amarela em Santos. O Conde d´Eu levou para lá uma missão médica para socorrer os doentes. O “Jornal do Comercio” aplaudiu: “Em boa hora lembrou-se o conde d´Eu de ir para Santos demonstrar interesse pelo povo” O mesmo autor relata que, por ocasião da crise que levou à dissolução da legislatura, quando o gabinete caiu, o Conde d´Eu pediu uma audiência privada ao imperador na qual se manifestou contrário à dissolução. Em carta posterior à condessa de Barral, Gastão contou que o imperador o deixou falar durante uma meia hora sem dizer nada, parecendo um pouco contrariado. Depois de ouvi-lo algum tempo, disse que ia pensar no assunto. 16 “Essa foi a primeira vez que conversei formalmente com o imperador sobre política”, lamentou-se o nobre francês.

Barman confirma: “

O imperador manteve a filha e o genro totalmente excluídos das subsequentes manobras políticas. Mesmo naquela fase final de seu reinado, D.Pedro não admitia partilhar a sua autoridade com ninguém, muito menos com uma mulher” 17
Ou já previa D.Pedro que o império terminaria com a sua morte ? Ao meio de tantas crises políticas sucessivas, que ocorreram depois da guerra do Paraguai, julgava o imperador que, em breve, a República seria proclamada ? Seria trabalho inútil preparar a sua filha e seu genro para algum dia, já próximo, governarem ? Essa parece ser a única explicação pelo total desinteresse em preparar o casal para o poder. Julgava ele que a má imagem popular do genro impediria a filha de governar ? São perguntas que ficam no ar e que explicam, em parte, o completo isolamento em que ficou o casal depois do regresso de D.Pedro II da viagem aos EUA e à Europa e isso apesar de Isabel haver proclamado o final da escravidão. Em verdade, faltava bem pouco para a queda da monarquia.

Ao primeiro pretexto, bem pouco sério, a cúpula militar que tão descontente estava por motivos variados, optou pelo golpe. Um golpe carioca apenas, porque o resto do Brasil não chegou a ser consultado. D. Pedro continuava muito querido, tanto que o marechal Deodoro, logo após proclamar a República, deu um “Viva a sua Majestade Imperial D.Pedro II”, algo espantoso para quem estava derrubando um império. Se D.Pedro, que estava em Petrópolis, tivesse descido a serra e enfrentado o golpe, ele poderia ter revertido a situação. Mas o imperador estava cansado de governar.

Luís da Câmara Cascudo nos relata em seu livro sobre o Conde d´Eu um episódio curioso que parece definir bem o caráter e a generosidade do personagem:
“Uma noite de baile imperial, André Rebouças foi sucessivamente recusado a dançar por várias senhoras : o mestre inesquecível era escuro. O orgulhoso Orleans notou. Atravessou o salão com a herdeira do trono pelo braço. Parou ante André Rebouças e, com graça e distinção, soltou a princesa imperial. E o recusado sábio dançou com D.Isabel , honra de manifesta raridade”. 18
Por ocasião da partida da família para a Europa ocorreu outra cena desagradável entre o Imperador e sua filha e genro. Já estavam todos a bordo se instalando em suas respectivas cabines quando subiu ao navio inesperadamente um emissário do governo provisório. D.Pedro II o recebeu e se surpreendeu com as palavras do porta-voz republicano: ele vinha oferecer ao Imperador e à sua família uma substancial quantia em dinheiro para as primeiras despesas da família em sua instalação na Europa. O governo compreendia os inconvenientes de uma partida inesperada e desejava facilitar a vida de todos. D.Pedro não hesitou e recusou imediatamente, mas o Conde d´Eu se rebelou contra a sua decisão e disse que aceitava em nome de sua família, lembrando que tinha três filhos adolescentes. D.Pedro porém cortou–lhe a palavra e afirmou enfaticamente, em nome da família imperial, que nada aceitaria do governo republicano. Consta que depois da partida do emissário republicano, a discussão entre o imperador e Gastão de Orleans continuou em termos bastante vivos. Ambos tinham suas razões.

Curiosamente, Max Fleuiss, em seu livro Relembrando, relata que “quando se estabeleceu a República, foi organizado um Conselho de Estado, no qual foram integrados como “membros extranumerários” a princesa imperial e o príncipe Conde d´Eu”. 19 Esta informação bem demonstra a confusão que reinava nos primeiros dias da República.


Após a proclamação da República, em 1890, ao chegarem à Europa, o casal instalou-se em três residências: na Normandia, no castelo d´Eu e em uma bela vila em Boulogne-sur-mer. O duque de Nemours ajudou bastante o filho, então com apenas 45 anos, a instalar-se. Gastão tentou recuperar sua posição na família real francesa, mas o Conde de Paris, o chefe da Casa de França, foi intransigente: Gaston se havia naturalizado brasileiro e renunciado a todas as ligações com a família paterna. Isso o excluiu definitivamente da Casa da França, fato inapelável. Depois da morte do imperador, o casal viajou bastante: visitaram os EUA, Japão, China, Ceilão, Índia, Egito e a Terra Santa, então colônia inglesa. Gastão publicou um pequeno livro, Journal d´une promenade autour du monde en 110 jours.

O casal educou os rapazes na Europa nos melhores colégios e, em 1909, com os filhos já maiores, “conseguiu recuperar para eles e seus descendentes a possibilidade de se casarem com outros nobres, sem o ser morganaticamente”. 20 Em 1920 o presidente Epitácio Pessoa revogou o decreto inicial da República que bania a família reinante do território brasileiro e o couraçado “São Paulo” trouxe os despojos dos imperadores para o Brasil, aqui chegando a 8 de janeiro de 1921. O Conde d´Eu e Isabel viajaram no navio de guerra brasileiro e no Rio de Janeiro o Conde d Éu, decano dos sócios e presidente honorário do IHGB, lá foi recebido oficialmente com todas as honras em sessão especial a 12 de fevereiro de 1921. A princesa estava adoentada e pediu para regressarem à Europa. Pouco depois, a 4 de novembro de 1921. ela faleceu aos 75 anos de idade.

Ao todo Gaston viveu 25 anos no Brasil e morreu a bordo do navio “Massilia”, a 28 de agosto de 1922, aos 80 anos, navegando a caminho do Brasil para festejar o centenário da Independência. Isabel e Gastão também descansam na catedral de Petrópolis.

Dois de seus filhos participaram da 1ª Guerra Mundial e tiveram mortes honrosas: D.Luís, capitão do exército inglês, foi condecorado com a British War Medal. Faleceu em 1918. D.Antônio foi piloto de combate da aviação francesa, recebeu a Military Cross e a Croix de Guerre francesa. Seu avião caiu perto de Edmonton, onde veio a falecer no hospital militar em 1920. O herdeiro imperial do Brasil, D.Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança só desapareceria em 1940, aos 65 anos de idade.

Para terminar lembro frases do ilustre sociólogo Luis da Camara Cascudo em seu livro sobre o Conde d´Eu:
“Sobre a nobre figura do Conde d´Eu desabaram todas as tempestades do ódio, da acusação e da mentira. Só o tempo teve o dom de limpar tantas névoas densas acumuladas sobre fatos ilustres e feitos valorosos. A reabilitação de sua vida pública depois se fez contínua e claramente. Seu maior erro foi não aliar-se às correntes partidárias que dividiram o império”.21
* * *
Em 1917 Max Fleuiss, secretário do Instituto Histórico, quis trazer para o Brasil os arquivos do Imperador que estavam no castelo d´Eu. Por carta de 19 de janeiro de 1918, o Conde recusou-se a atendê–lo, dizendo: “nem a princesa consentiria em separar-se dessas lembranças do seu amado pai, nem isso seria atualmente possível, pois não estão esses papeis de qualquer modo classificados”. O historiador, em seu livro Relembrando, completa a informação:

“Quando o consorte de Isabel deu-me a honra de vir à minha casa no dia 16 de janeiro de 1921, insisti no pedido no que me pareceu merecer-lhe o assunto maior consideração, dizendo que ao IHGB, do qual se orgulhava de ser o mais antigo presidente honorário, nada poderia negar”


O Instituto realizou uma sessão especial em homenagem ao Conde d´Eu, no dia 12 de fevereiro de 1921, falando o seu presidente, conde de Afonso Celso, e Ramiz Galvão, que havia sido preceptor dos filhos do príncipe, o qual agradeceu “com a eloqüência da sinceridade”. Os papeis do imperador continuaram no castelo d´Eu quase inacessíveis por muitos e muitos anos. Por ocasião da 2ª Guerra Mundial, o castelo d´Eu foi ocupado pelo exército alemão e Max Fleuiss voltou a ocupar-se do assunto, entrevistando-se com o embaixador alemão no Rio de Janeiro. Pediu-lhe que solicitasse às autoridades alemãs todas as cautelas com os arquivos imperiais, e foi atendido. O presidente Getúlio Vargas criou o Museu Imperial em Petrópolis, onde finalmente foram reunidos todos os objetos e arquivos existentes.

Na referida sessão do IHGB de 12 de fevereiro de 1921, depois das saudações de Afonso Celso e de Ramiz Galvão, o Conde d´Eu assim agradeceu a homenagem que lhe prestavam, tantos anos depois que deixara o Brasil com o Imperador, em novembro de 1889:

“Dos elogios que ora me são prodigalizados, só me é lícito aceitar os que comprovam o meu amor ao Brasil e a boa vontade com que a ele me dediquei, servindo-o não só nas operações militares, necessárias para assegurar-lhe paz honrosa e firme, como nas labutações em tempos mais tranquilos.
Si me coube a fortuna de ser bem sucedido naquele empenho e de vencer as dificuldades acumuladas pela resistência obstinada de tenaz inimigo, cumpre-me referir o mérito do êxito feliz aos meus comandados, cuja coadjuvação dedicada nunca me faltou. Por um lado a valentia do soldado brasileiro, à sua resignação nas provações por vezes duras de uma campanha em regiões inóspitas; por outro ao auxílio dos chefes ilustres, alguns dos quais me haviam precedido no comando, e que não hesitando contudo em aceitar a minha autoridade em circunstâncias imprevistas, vieram em muitas ocasiões suprir com seus conselhos a inexperiência da minha mocidade. De todos eles guardo profundo e nunca esquecido reconhecimento”22
Em agosto de 2012, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do qual Gastão foi presidente honorário, já programou uma sessão em sua homenagem por ocasião do 90º aniversário de seu falecimento.

Um pesquisador com maior fôlego do que eu poderá descobrir ainda muitas informações interessantes na correspondência do Conde d´Eu nos arquivos da Europa e o que está no Museu Imperial de Petrópolis. Roderick Barman já fez uma primeira excelente pesquisa em profundidade, mas muito mais pode ser revelado.. Mary del Priore certamente irá mais fundo agora em seu já contratado livro de 2013 sobre o casal imperial. Então será possível justificar a ausência do personagem nos livros de história do Brasil sobre a época, um dos erros da nossa historiografia .



(Palestra proferida no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio no dia 29 de março de 2011)

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1 DEL PRIORE, Mary – Consortes nos trópicos: dois príncipes da casa de França no Brasil, na revista do IHGB nº 444, Rio de Janeiro, julho-setembro de 2009, página 278.

2 DEL PRIORE, Mary – op. cit. página 283.

3 DORATIOTO, Francisco – Maldita Guerra, Companhia das Letras, São Paulo, 2002,pg. 398.

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4 TAUNAY, visconde de - Memórias , editora Melhoramentos, São Paulo, 2ª. edição, 1995, página 310.

5 TAUNAY, visconde de - Op. cit., página 380.

6 CHIAVENATO, Júlio José – Genocídio Americano: a guerra do Paraguai, editora .... , 1979.

7 CARDOZO, Efraim – El Paraguay Independiente, editorial El Lector, Assunção, página 305 e 306.

8 Wikipedia – vide longa e informativa biografia do Conde d´Eu.

9 DORATIOTO, Francisco – Op. cit. página 455.

10 CASCUDO. Luís da Câmara – O Conde d´Eu, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1936, páginas 110-111.

11 BARMAN, Roderick - A princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX, editora da UNESP, São Paulo, 2005, página .156

12 BARMAN, Roderick – Op. cit., página 323.

13 SCHWARCZ, Lilia - As barbas do Imperador, Companhia das Letras, São Paulo, 2006, página 433.

14 BURTON, Sir Richard – Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai, edição da Biblioteca do Exédrcito, Rio de Janeiro, 2001, página 399.

15 BURTON, Sir Richard – Op. Cit. páginas 400/401.

16 BARMAN, Rodeick – Op. cit. página 261.

17 BARMAN, Roderick – Op. cit. página261.

18 CASCUDO, Luis da Câmara – Op. cit., página 155.


19 FLEUISS, Max – Relembrando – revista do IHGB, 3º volume, página 98.

20 DEL PRIORE, Mary – Op.cit. página 287.

21 CAMARA CASCUDO, Luis da - O Conde d´Eu, Companhia Editora Nacional, , São Paulo, 1936, págna 155.

22 Revista do IHGB de 1921. Resposta do Conde d´Eu aos discursos de saudação do Conde Afonso Celso e do Dr.Ramiz Galvão. Página 655.


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